O pintor faz renascer o poeta pintado. Sobre as alfaces venenosas, seus pés tremem como se fossem duas barracas ao vento. O poeta pintado move-se em direcção ao exterior da tela, tendo a cara inseparável ao plano. O pintor tem medo da sua própria criação e foge em direcção ao Sol. Estava um dia de Inverno, o Sol andava baixo. O pintor sabia que não o agarrava, mas ainda assim corria em direcção a ele. O poeta, agarrado à tela, distraía-se com a sua imaginação, que era todo aquele cenário do pintor atrás do Sol. Quis-se soltar. Soltou-se. A tela jazia no vento forte e no nevoeiro da imaginação com seu subtil furo uniforme. Quis correr atrás do seu criador. Correu. E não o apanhou. O criador era mais estranho que a criação. Será possível desenhar um humano mais perfeito que nós próprios? Será possível a criação imaginar o criador, não sabendo ele quem o criou? Ainda assim corria e imaginava o criador a correr por aqueles prados verdejantes infestados dessas alfaces venenosas que se colavam na perna de pedra deste. Até que chegam ambos a uma fronteira. No país da imaginação chama-se distracção. O sol perde o brilho dourado, o céu irradia-se com a luz espelhada anteriormente pelo sol. Não passava de um sonho acordado, de um poema fechado, de um sonho envenenado. A pena cai da mão do poeta. O pincel cai da mão do pintor. Cada um exclui a obra que tem na frente. Talvez uma obra esquecida para a vida. A obra que ninguém se lembrou quer por escrito, quer por imaginação. É um episódio do quotidiano perdido entre páginas vivas.
(sem data)

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